
É verdade que os nómadas do deserto seguem a rota dos astros para alcançar o destino. Eles sabem que os astros são sinais que se encontram escritos desde sempre, fora da experiência quotidiana, portadores de uma magia ancestral. As mulheres guiam-se pelas luas, a experiência antiquíssima do mundo é uma escrita que se traça no resplendor íntimo da noite.
E raro o poeta que traz em si, oculta, a ferida dos nomes, que pressente que o rumor das palavras ressuma no “espanto, a cicatriz aberta pelo medo” também porque o silêncio da desmedida noite é o abismo onde se manifesta a revelação da verdade da linguagem (da profética, da simbólica ou da poética).
No paradeiro de uma linguagem inactual, Ricardo Gil Soeiro ousa a transgressão mística, as águas profundas de uma experiência que já nada tem a ver com a nossa, a quotidiana, aquela que tanto tomba para um realismo cruel ou para uma nostalgia spleenética. Insiste num universo poético em que as correspondências, sejam elas quais forem, entre os elementos, os astros, o tempo, a caligrafia, ainda se perfilam no horizonte da linguagem poética. Não teme o arroubo lírico porque sabe que a experiência amorosa não se faz senão de forma desmedida, ou então, não sairíamos da poesia formal, tão conveniente quão correcta.
Tomou Mallarmé, Novalis, os vastos poetas por mestres e não se deixou arrastar pelo modismo, conhece a magia dos elementos e a força indomesticável da linguagem poética, assombrada e frágil, precária, mas sempre redigida na língua da verdade. Linguagem de espera, de sobressalto, onde “as letras são iguais a tantas outras, /as mãos desistem do princípio e do fim:/o teclado pinta um fundo de lágrimas, /aguardando o regresso do teu corpo” (poema 10). Tal como o nómada que se perde na tempestade, “resta o assobio do mundo lá de fora, / as aves atrapalhando o vento (…)”.
O medo ou o silêncio da resposta não o fazem desistir de procurar a rota certa, de decifrar o “alfabeto dos astros”, mas antes essas palavras (ou nomes) “caem como pedras: água, saudade, floresta e passos” (poema 15), é ele mesmo, o poeta, que se “enlaça ao vento”, para melhor escutar o que chega até ao coração.
É certo, um primeiro livro de poesia, que se lê com um estremecimento raro, saber que ainda é possível habitar esse desígnio mágico da linguagem, onde palavras são nomes, estrelas ou astros, que resplendem na escuridão. Caberá ao poeta o gesto máximo do silêncio, para que o rumor nos chegue com a clareza da linguagem? Afastando os escolhos dos modismos, das regras formais, para que a noite não nos deixe ignorar o rigor da chuva ou nos deixe respirar a mansidão de outrora ou os vestígios que outros nos legaram.
No belíssimo poema 17, Ricardo Gil Soeiro desvenda a corpo inteiro o que é a poesia e a escrita para ele: uma “tarefa” ou um “cargo das palavras”. É inevitável que o exercício da escrita é um ofício de corpo inteiro. Mas é também um exercício de identidade: aquele que escreve, lê o alfabeto, decifra-o, reconfigura a caligrafia de mil formas diferentes, sem paz. Percebemos o vazio, o abismo do poeta, mas também o alívio imenso dessa tarefa: “tenho o tempo todo: vou viver em segredo e ignorar o vento./ transformo-me em sopro sem ruído, regressarei à terra muda onde nada recomeça.” Será medo da imensidão ou apenas o cansaço daquele que observa o alfabeto dos astros, teimando em decifrar indícios mágicos, imagens salvíficas e só o silêncio da noite lhe responde, no desamparo da espera?
Nesta poesia, a morte não é fissura nem ferida, sequer, apenas uma passagem para a eternidade: “se um dia morri, /foi para acordar em tua alma.” (poema 6) O poema faz-se para alcançar a memória de outros, liquefaz-se e retoma novas configurações, matéria alquímica que não se esgota porque a magia da linguagem jamais se esgota. Vai-se a presença, o amor, abrem-se feridas improváveis que a luz das palavras salva.
Maria João Cantinho, Prefácio do livro de Ricardo Gil Soeiro, O Alfabeto dos Astros, editora Edium, Porto, 2008.
